terça-feira, 17 de novembro de 2009

o olhar


As mãos se tocam, a música antes perceptível e convidativa se desfaz aos poucos como se não quisesse interferir no sentimento.
Os olhares se cruzam de relance fazendo o sorriso aparecer por cima da timidez. O frio sobe mesmo com o calor humano ao redor, o espaço formado pela volta dos braços se torna grande demais para a vontade de estar mais perto.
O olhar penetrante me faz não querer olhar ao redor, parei para fotografar aquele olhar fixo, como se quisesse me descobrir cada vez mais.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O Julgamento de Deus


Numa sala grande um juiz ajeita papéis em cima da mesa. Alguém, em frente a um computador, parece aguardar para escrever o que o Meritíssimo disser. Um guarda anuncia:

Guarda: Jurado número um, John Lennon!

O beatle entra, saúda o juiz e senta-se numa das dez cadeiras ao lado do magistrado, em frente à mesa em forma de meia-lua.

Guarda: Jurado número dois, Pelé!

O Rei do Futebol entra sorrindo e acenando para uma multidão inexistente. Senta-se ao lado de John, que o abraça muito.

Guarda: Jurado número três, Buda!

O avatar entra tranqüilo e saúda a todos em seu cumprimento típico. Senta-se. Lennon da-lhe um tapinha na cabeça e finge que não foi ele, demonstrando continuar o mesmo brincalhão de sempre.

Guarda: Jurado número quatro, Osama Bin Laden!

O terrorista vem, ancorado no seu doce sorriso.

Osama: Que Alá proteja a todos!

Juiz: Ele já vem.

Osama: Assim esperamos.

Guarda: Quinto jurado, Che Guevara!

O guerrilheiro surge de boina e charuto. Buda não se empolga muito, mas Osama levanta-se e atira-se a seus pés, gritando:

Osama: Meu ídolo! Meu ídolo!

Guevara: Calma, hermano! Somos todos iguais.

Guarda: Jurada número seis, Madona!

A material girl entra dançando um funk. Pelé bate palma no ritmo e Lennon faz cara de nojo. Quando ela senta, a música para.

Guarda: Jurado número sete, Pedro Álvares Cabral!

O navegador entra com seu conhecido sorriso português e imita um pouco a dança de Madona, tentando fazer graça, e senta-se.

Guarda: Jurado número oito, Hitler!

Adolf entra e faz a saudação de sempre.

Osama grita: Tamo junto, Adolfinho!

Hitler: Sempre!

Guarda: Nono jurado, Bob Marley!

O jamaicano entra enrolando um baseado e proclama com um sotaque adocicado: Jah!

Guarda: Meritíssimo, o júri está completo.

Juiz: Quero agradecer aos jurados presentes. É a primeira vez na história do universo que o júri será composto pelos dez advogados de acusação, e o réu será seu próprio defensor. Isso só foi aceito devido ao imenso poder do acusado. Chamemos, então, o nosso réu: Deus.

Deus entra simpático, com um sorriso simples. Calça jeans, camiseta azul e boina amarela.

Deus: Salve a todos! Obrigado por virem. E que Eu esteja convosco.

Osama: Posso te chamar de Alá?

Deus: Claro. Me chama como quiser.

Vira-se, sorridente, pra Madona: E aí, minha loura? Tem estudado a cabala?

Madona: Mais ou menos, Deus. Era mais uma jogada de marketing...

Che Guevara (interrompendo): Antes de mais nada, eu quero me desculpar por ter dito que você não existe.

Deus: Não tem problema nenhum, meu Che. Eu criei vocês para pensarem como quiserem e dizer o que quiserem, do jeito que quiserem.

Lennon: Aquela minha música que dizia “imagine um mundo sem religiões”, não era nada contra sua pessoa.

Deus: Nem me passou pela cabeça. A música é boa. Isso é que importa.

Juiz: Antes de começarmos o julgamento de Deus, gostaríamos de agradecer a Ele por vários motivos. Primeiro, por aceitar ser julgado. Já que, sendo todo poderoso, poderia simplesmente jogar um raio na gente e transformar-nos em poeira cósmica. (todos aplaudem Deus, que sorri, modesto) Conforme o combinado, todos do júri farão acusações, cabendo a Deus rebatê-las. E ao final, os membros deliberarão e darão o veredicto de culpado ou inocente. Em caso de culpa, obviamente não haverá pena, pois aqui ninguém é imbecil a ponto de condenar Deus, pois não prisão capaz de encarcerá-lo, força capaz de mata-lo etc... etc...

(tudo o que o juiz e Deus falam, o assistente digita no computador)

Juiz: Vamos à primeira acusação.

Hitler se levanta: A minha acusação é clara. Você deixou que minha imagem fosse deturpada. Se eu acreditava que os judeus eram o Mal, então a minha intenção foi a melhor possível. Se eles eram o teu povo escolhido, o Senhor podia ter me contido ou avisado.

Deus: Querido Adolfo...

Hitler (interrompendo): Deixa eu terminar. Eu tinha entendido que o que vale é a intenção. Além disso, aqueles filhos da mãe tinham crucificado Cristo, seu filho. Como eu podia ser acusado por tentar exterminar os assassinos do seu filho? Já sei o que o Senhor vai dizer. Que é contra a violência. Mas então, por que criou maremotos e vendavais? Aquilo é de uma violência incrível!

Deus: Terminou, Adolfinho?

Hitler: Por enquanto, sim.

Deus: Em primeiro lugar, eu nunca disse que tinha um povo escolhido. De minha parte, amo todos os povos, com intensidade e qualidade iguais. Em segundo lugar, eles não mataram meu filho. Ele forçou a barra quando recusou a chance que Pilatos lhe deu. Eu sofri com Ele, que sofreu por vocês. Mas ele fez aquilo para que vocês não sofressem mais e não para que vocês quisessem sofrer por ele. Isso tem sido uma bobagem. Outra coisa, meu amado Hitler, você cismou que os alemães eram um povo superior, coisa que Eu nunca disse. Além disso, Eu não o condenei, ou não condenei os maremotos a que você se referiu, como não condeno nada, nem ninguém. Não há julgamento divino. Isso foi uma invenção dos homens. O que dei a você foi o livre arbítrio. O que você fazem está feito, sem Céu e sem Inferno.

Pelé se levanta: Aí é que eu gostaria de me pronunciar. Fui avisado de que existia o Inferno e aproveitei menos a vida do que podia. Não é que eu não tenha pecado. Pequei. Fiz muita coisa errada. Mas sempre sentia culpa, e isso me prejudicou. Curti menos do que devia.

Deus: Ah, Édson! Você é o único filho de quem já senti uma certa inveja. Eu tinha que, a todo o momento, me lembrar de que eu mesmo te criei, para não ficar com ciúmes das suas jogadas. Aquele gol contra o Fluminense, que você levou a bola de uma área à outra, foi divino!

Pelé: Divino é o senhor!

Deus (continuando): Agora, quanto à sua culpa, é problema seu.

Pelé: E aquela distensão na coxa, na Copa de 62? Você não poderia ter evitado?

Deus: Deixa de ser reclamão, negão! Aquilo foi acidente. Você acha que eu tenho tempo de ficar interferindo nas coisas?

Silêncio.

Pelé: Me perdoa, Deus.

Deus: Sou eu quem está sendo julgado.

Juiz: Próxima acusação!

Pedro Álvares Cabral se levanta e diz, magoado: O Senhor abandonou os portugueses.

Deus: Eu!?

Pedro: Sim, o Senhor. Em 1500 éramos donos de metade do mundo.

Deus: Segundo quem?

Pedro: Segundo o Papa, seu representante na Terra.

Deus: Eu nunca disse isso. Quem inventou esse negócio de papa foram vocês.

Pedro: Eu rezei para o Senhor me mostrar o caminho para as Índias e o Senhor me levou até o Brasil.

Deus: Quem levou a Senhor, senhor Cabral, foram as caravelas e o vento. Além disso, o Senhor deveria estar feliz, porque se eu tivesse um povo preferido, seriam os brasileiros, que não matam em meu nome. Além disso, fiz o Senhor desembarcar nas praias mais lindas do mundo. Eu mesmo, quando criei o Brasil, fiquei tão empolgado que tive três segundos de vaidade.

Pedro: O Senhor nega ter me apontado aquele caminho?

Deus: Reconheço que botei um ventinho ou outro, porque achei que seria uma perda não descobrirem aquele lugar lindo.

John Lennon: Eu nunca fui ao Brasil.

Deus: É esta a sua acusação contra mim?

John: Não. Eu o acuso de ter me deixado morrer tão cedo. Tinha muita coisa pra fazer, ainda.

Deus: Em primeiro lugar, eu não mato ninguém. Livre arbítrio. Em segundo, não vejo mais nada que o Senhor poderia ter feito, pois todas as suas políticas eram ingênuas e você tinha menos musicalidade que o Paul. Pra sua imagem, foi ótimo morrer cedo.

Che Guevara se levanta: Minha acusação ao Senhor é a desigualdade social eterna. Isso me enlouquece.

Deus: Querido Che, eu jamais inventei a sociedade. Foram vocês, humanos, que criaram esse absurdo. Eu acho um homem dominar outro homem tão abominável quanto você. Torci pela revolução cubana. E só parei de torcer quando você partiu pra violência. Mesmo assim, não interferi. Além disso, Eu te dei um charme pessoal incrível. Não fosse isso, teu discurso não teria impacto.

Madona pede a palavra: Eu queria confessar que não tenho acusação alguma a fazer contra Deus. Tive uma vida maravilhosa e só tenho a agradecer.

Juiz: E por que veio aqui loura?

Madona: o Senhor me conhece. Eu não perco um evento desses por nada.

Osama (enfurecido): É por isso que eu odeio esses americanos. Só pensam em aparecer. Só pensam em vencer. São monstros.

Madona: Calma, gato!

Osama: Não sou seu gato! E minha acusação é a seguinte: como é que deixa uma nação tão imperialista como os Estados Unidos dominarem o mundo por tanto tempo? Como o Sr permite essas tragédias dos milk shakes e fast foods?

Deus: E o jazz, Osama?

Osama: E as guerras?

Deus: E o blues? O Jimmy Hendrix?

Osama: Quando o Senhor fala em livre arbítrio está deixando impune o Mal que domina o Bem.

Deus: E eu sei lá quem é o bem, Osama?

Osama: Se o Senhor não sabe, quem é que sabe?

Deus: Ninguém. Alguns acham que sabem e julgam os outros. Este talvez seja o pecado mais grave. É a sua vez, Bob.

O negão levanta e diz: Ta tudo certo, Deus. Eu ia reclamar de ter morrido cedo, mas não vou não. Tou legal. E pelo que eu entendi o Senhor não condena a poligamia na religião rastafári.

Deus: Meu querido Bob Marley, eu não condeno nada. Eu sou o Amor.

Bob: É isso aí.

Deus: Isso o que?

Bob: Tudo.

Deus: Ta.

Bob: Ta. Quer dar um pega? (oferece maconha para Deus)

Deus: Não, muito obrigado.

John Lennon: Mas se o Senhor é Todo Poderoso, por que não criou o mundo perfeito?

Deus: Pra que vocês fossem autores da vida de vocês. Pra que vocês tivessem a alegria de conquistar as coisas.

Nesse momento Buda se levanta e saúda Deus: Eu não o acuso de nada, porque não é do meu feitio. Mas questiono o fato de nos ter dado desejos, pois da frustração deles vem o sofrimento. Tive que inventar o desapego para livrar a humanidade das dores.

Deus: Meu querido Buda, no final vale a pena, não vale? Se desapegar pra não sentir falta de quem se ama vale alegria de conviver com o ser amado? Os anjos têm inveja do ser humano. Se você não quer, como não quis, se desapegue. A opção é sua. Isso é o que eu dei a vocês de mais precioso: o direito de optar.

Madona: E quanto à sua condenação ao Lúcifer? Ele não está condenado ao Inferno?

Deus: Claro que não. Como já disse, o Inferno não existe. Lúcifer é um anjo da maior competência. Apenas ciumento e com inveja dos humanos. Tanto ele não esta condenado, que esta aí exigindo o meu julgamento.

Silêncio espantado. Todos vão se virando para o “juiz”, com um sorriso temeroso.

Juiz(batendo o martelo): Se todos argumentaram, vamos ao veredicto. O júri pode se reunir.

O júri conversa entre si e chega a uma decisão.

Che Guevara vai à frente e diz: Deus é inocente. As besteiras são todas nossas.



Fim?
(by Oswaldo Montenegro -http://bloglog.globo.com/oswaldomontenegro/)

terça-feira, 12 de maio de 2009

Liberdade do SER


Às vezes esquecemos aquilo que somos. É preciso parar, refletir, (re)vivenciar marcas existentes, sejam no corpo ou na alma, para que possamos entender que estamos vivos, que não somos uma máquina, pronta a qualquer momento para trabalhar. É preciso aproveitar os instantes, os segundos. Meio clichê esse tipo de pensamento, mas é a mais pura verdade, pois não há nada mais gratificante do que parar nem que seja um segundo para fazer aquilo que se tem vontade, ser livre. Ter a liberdade de voar para onde quiser, a hora que quiser, nunca esquecendo do mais importante: ser aquilo que se é, que se sente naquele momento. É por isso que trago em mim o gene da arte e uma bela borboleta sendo carregada aos meus pés, para jamais esquecer de parar e ser apenas EU.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Velhas e novas loucuras


Mais uma vez a loucura ultrapassa a razão e lá permanece. Querer que isso não ocorra? Nunca! Continuo correndo atrás de algo que minha razão diz que não valerá a pena, enquanto meu coração ainda transborda de vontades com um único fio de esperança, que aparentemente jamais cessará (e não duvido)! Querendo ter o olhar calmo para acompanhar os passos, o sorriso confortante para os dias de cansaço, a vontade que queima de tão intensa. Enquanto isso me consumo em minhas próprias lembranças e em minha própria imaginação dia-a-dia, esperando que a loucura, um dia, seja compreendida pela razão.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Cansaço...


É duro quando procuramos força para vencer um cansaço que aparentemente não vai cessar tão cedo e não conseguimos encontrá-la, mesmo que seja para fazer algo que se ama, às vezes a cama é a melhor solução.

domingo, 22 de março de 2009

Dores do sorriso


O corpo dói. Marcas de suor. Enquanto cada músculo, cada pedaço seu se mostra presente, sua mente transborda transformando a dor em prazer, fazendo com que o sorriso surja mesmo embaixo das tristezas do dia, das brigas com o travesseiro, da monotonia do dia seguinte...o sorriso tem que continuar, pois é nele que você mostra a sua verdadeira realidade que fará você nem se importar com o fato de não conseguir nem sentar no dia seguinte.

domingo, 15 de março de 2009

A arte de não morrer


"Temos a arte para não morrer da verdade" - Nietzsche

O que seria da vida se não fosse a arte para reinventá-la todos os dias da forma como gostaríamos que ela fosse? Não daríamos risada dos políticos corruptos, não teríamos a esperança do amor duradouro, a sede pelo conhecimento, o choro verdadeiro das situações. Morreríamos por sabermos o quão monótona e o quão certa nossa vida é, e que nosso único destino é a morte certa.
Sonhos, dúvidas, esperanças, o se ver no outro se dissolveriam em um mar cinza de verdades alheias que nos lamberia a cara todos os dias, deixando marcas indestrutíveis.
É por isso que eu acredito que a arte seja a única saída para a conscientização de que somos aquilo que queremos ser, tudo está em sua imaginação, o mais belo dom que nos foi proporcionado, pois só artista consegue se mostrar sendo aquilo que ele seria se realmente o fosse. Podendo reviver aquilo que ele realmente considera ser sua verdadeira alma.